sábado, 18 de fevereiro de 2006

Era uma vez...



Era uma vez um ser.

Um ser aprisionado por uma carcaça seca, velha, encarquilhada.

Era uma vez um ser ressequido, queimado pelo tempo.

A pele aprisiona-o, a carne queima-lhe os ossos.

Perante ti o corpo parece possuí-lo, confrontando-o com uma condição à qual está preso.

Era uma vez um ser, que tu não vês, mas que olha para ti como há muitos anos atrás, quando o rosto era de menina e o corpo não lhe pesava.

Um ser cheio de vida, enclausurado num corpo inerte, incapaz de se mover como em tempos idos.
Era uma vez um ser.

Um ser que o foi mas já o não é.




quarta-feira, 18 de fevereiro de 2004

Tenho medo



Tenho medo da violência, da guerra, medo do homem-bomba.

Tenho medo de ter medo, medo de não o ter.

Tenho medo de perder, medo de amar, medo de errar.

Tenho medo da mentira, medo da verdade.

Tenho medo de parar e nada fazer.

Tenho medo de fugir, medo de ficar.

Tenho medo de crescer, medo de embrutecer.

Tenho medo que o medo volte e medo que nunca mais parta.

Tenho medo de berrar, medo de calar.

Tenho medo da pobreza, medo da riqueza, medo da incerteza.

Tenho medo da solidão, medo da doença, medo das fobias.

Tenho medo que o baralho de cartas venha abaixo e tudo não passe de um sonho.

Tenho medo de morrer e deixar.

Tenho medo do MEDO.